Não acho justo o amor
- 22 de nov. de 2017
- 3 min de leitura

SR, Sebastian - Verão de 2050.
Agora estou com meus setenta e sei lá quantos restantes de anos. Descobri depois de tanta velhice resmunguenta que tenho um lado dramático que precisa ser posto para fora.
É mais do que desgraçar as percepções que tenho de mundo, é refletir eternamente sobre essa saga barulhenta chamada vida.
Do meu ponto de vista é insuportável viver guardando coisas só para a gente, é egoísmo emocional. Minha indignação mais corriqueira e indagosa é conviver com harmonia com bicho misterioso chamado Vida. Que complexidade isso, não? Não é justo as peripécias que essa vida é capaz de me pregar, estou tão cansado, que dilema!
Eu sou pessimista racional, por natureza. Mamãe é que me fez ficar assim. Eu sabia que ela ia me estragar fazendo eu pensar como ela, mas ela foi uma ótima mãe, me deu o melhor que pôde.
Tenho um contexto profundo para desenrolar neste texto, lá vem eu com essas minhas complexidades que nem as terapias de grupo conseguiram equilibrar. Não reparem e não se influenciem. Eu sou o velho Sebastian. Decreto definitivo. Eu cheguei em um ponto de vista depois de muitas reflexões de que talvez eu esteja amadurecendo mais ou talvez retrocedendo. É caótico ser um velho de crises existenciais. Concluo que a vida definitivamente é em sua maior parte um grande ato dramático pela sobrevivência de nós mesmo em suas mais diversas complexidades.
Que profundo e poético, não? Eu poderia escrever um livro se eu conseguisse estar sempre inspirado dessa forma e largasse esse mal humor rotineiro de idoso solitário e reflexivo. A luta por sentimentos que vamos descobrindo que existem dentro de nós ao longo dos anos é surpreendente e uma tarefa muito delicada de auto observação. Aprendemos tantas coisas, como por exemplo que o ato de perdoar verdadeiramente alguém é complicado e exige muita honestidade da nossa parte, mais muita mesmo. Aprendemos também a desviar das angústias e frustrações cotidianas ao sermos insanamente bons com perspectivas. Aprendemos o tempo todo na verdade, somos obrigados a fazer isso.
Eu sempre fui esperançoso sobre as coisas da vida, sempre acreditei que o amanhã seria um dia melhor que o hoje, e de que novas chances e oportunidades passariam a existir para mim. Chegava a pensar que eu estaria em uma nova evolução; mas ao me deparar com uma das perdas mais doloridas que já senti por alguém aos meus 20 e poucos anos de idade eu não conseguia lutar para vencer o meu próprio eu. Então fiquei num estado de dependência emocional muito grande. Culpa da vida, óbvio e suas circunstâncias vezes impiedosa. Perdi grande parte do que eu já vinha construído na minha personalidade até antes disso acontecer. Abandonei a minha autoestima, a vontade de ver a luz do dia seguinte, a vontade de recomeçar e até pensei em interromper com a minha própria vida, eu cheguei num verdadeiro caos de tristeza profunda ao depender do amor de alguém. Sempre dependi de tanta gente.
Hoje sei que eu não me amava o suficiente. Nunca me imaginaria numa situação como essa até me acontecer de fato, foi um custo me recuperar do fundo do poço, levou tempo mais eu sobrevivi obrigatoriamente. Foi algo que eu não previa. Algum sinal de que ao menos parte disso ia me acontecer eu podia ter recebido não é mesmo VIDA? Daí eu desviava dessas balas e seguia tranqüilo. E não venham me falar que isso não seria muito bom, que eu acho que seria sim, seria perfeito eu acho. Parem com esse bla, bla, bla de que a vida é um grande mistério e essa que é a grande graça. Eis vida! Estou falando com a senhora mesmo.
Por esses e tantos outros motivos que não acho justo essas rasteiras que somos obrigados a tomar sem aviso prévio da vida. Queria entender mais sobre o motivo desses abalos que nos deixam tão arrasado de vez em sempre. O pior é que somos obrigados a aceita-los e nos adaptar no meio de tantas dores. Aprendizado? Preciso aprender de uma forma menos dura VIDA! Não seria mais fácil ser mais feliz do que ter de enfrentar essas crises e pressões sentimentais o tempo todo? A vida é definitivamente uma inconstância e precisamos ser resilientes praticamente o tempo todo para entender seus sentidos, razões e signos. Tudo vai depender de nossas interpretações. Tudo é tão tempestuoso, não acho justo. Seria meu sonho um manual de instruções? Com absoluta certeza. Estou ficando aqueles velhos rabujentos, com certeza, espero que vocês aí jovens possam ter tirado alguma lição dessa palhaçada escrita. Abraços!
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